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Por que casa de praia no nordeste vira forno (e como evitar) — Caderno Cactos
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Caderno Cactos / Bioclimatismo
Bioclimatismo

Por que casa de praia no nordeste vira forno (e como evitar)

Emanuel Souto e Natália Lourenço
9 min de leitura

A casa é bonita. Foto de revista. Vidro do chão ao teto na fachada, sala ampla, vista para o mar. A família comprou o terreno, construiu, mudou. E descobriu que entre meio-dia e quatro da tarde a casa não se usa.

O quarto do casal pega sol a tarde inteira. A sala envidraçada virou uma estufa. O ar-condicionado fica ligado o dia todo e mesmo assim não vence. A conta de energia chegou e ninguém acreditou. A casa de praia, aquela do sonho, virou um forno que só fica habitável depois que o sol baixa.

A gente já entrou em casas assim. Mais de uma. E a primeira coisa que a gente diz, com franqueza, é que isso não tem nada a ver com a praia.

O problema não é o calor. É o projeto.

A explicação fácil é culpar o clima. "É praia, é nordeste, é quente, fazer o quê." Mas essa explicação está errada, e é importante dizer por quê.

João Pessoa e o litoral paraibano ficam na zona bioclimática mais quente do Brasil, a chamada zona 8 na classificação da norma técnica que orienta o projeto de edificações no país. A temperatura ao longo do ano fica, na maior parte do tempo, entre 23°C e 31°C. Não é um calor extremo. É um calor constante, úmido, com sol forte e pouca variação entre as estações.

Esse clima é conhecido. Está medido, está documentado, está na norma. Quando a casa vira forno, não é o clima que falhou. É o projeto que ignorou o clima.

A casa de praia que ninguém aguenta ao meio-dia quase sempre foi desenhada como se pudesse estar em qualquer lugar. A mesma planta serviria para o sul do país ou para o sertão. Ela não conversa com o sol que tem, com o vento que tem, com a umidade que tem. É uma casa genérica posta num terreno específico. E o terreno cobra.

A boa notícia é que o contrário também é verdade. Uma casa pensada para o clima do litoral paraibano pode ser fresca a tarde inteira, com pouco ou nenhum ar-condicionado. Não é sorte. É decisão de projeto. E são basicamente quatro decisões que mudam tudo.

As quatro decisões que mudam tudo

1
Para onde a casa olha
A orientação solar é a decisão mais barata e mais ignorada de todas. Barata porque girar a casa no terreno não custa nada. O sol nasce no leste e se põe no oeste. No nordeste, a face oeste recebe o sol da tarde, o mais quente e mais baixo do dia, batendo quase na horizontal. A decisão certa é organizar a casa de modo que os ambientes de permanência longa fiquem voltados para o sul e o leste. As faces oeste e norte ficam para os ambientes de passagem. Isso se decide no papel, antes de qualquer parede. Depois da casa construída, não tem conserto. Só remendo.
2
O beiral que protege
Beiral é a parte do telhado que avança para fora da parede. Na arquitetura nordestina de sempre, o beiral é profundo, generoso. Não é enfeite. É sombra. Um beiral bem dimensionado bloqueia o sol alto do meio-dia e deixa passar o sol baixo da manhã, mais fresco. A parede fica sombreada nas horas críticas. Casa moderna sem beiral, com a parede e o vidro expostos ao sol direto, é casa que escolheu a estética e abriu mão do conforto. Dá para fazer arquitetura contemporânea com beiral. A casa precisa de aba, como quem precisa de chapéu no sol do meio-dia.
3
Deixar o vento atravessar
No litoral paraibano o vento é um aliado constante. Os ventos predominam da direção sudeste, vêm do mar, sopram a maior parte do ano. O princípio se chama ventilação cruzada. O ar precisa de uma entrada e de uma saída. Se há abertura em uma face da casa e abertura na face oposta, o vento entra, atravessa o ambiente, varre o calor e a umidade, e sai. Se a casa só tem janela de um lado, o ar entra e não tem para onde ir. Uma casa que respira bem precisa de muito menos ar-condicionado. Em muitos dias, não precisa de nenhum.
4
Materiais que seguram o calor do lado de fora
Materiais diferentes reagem ao calor de formas diferentes. Alguns têm o que se chama de inércia térmica: absorvem o calor devagar, seguram, e só liberam horas depois, quando o sol já baixou. Para o litoral do nordeste, a recomendação é clara. Paredes com boa inércia térmica e cobertura bem isolada, porque o telhado é a superfície que mais recebe sol ao longo do dia. A arquitetura nordestina tradicional já sabia disso de forma intuitiva. Paredes espessas, telhado ventilado, materiais da terra. O projeto contemporâneo não precisa abandonar esse conhecimento. Precisa traduzi-lo.

As quatro decisões somadas

Nenhuma dessas quatro decisões, sozinha, resolve uma casa. É a soma delas que faz a diferença.

A orientação certa coloca os ambientes longe do pior sol. O beiral sombreia o que ainda recebe sol. A ventilação cruzada tira o calor que entrou. Os materiais atrasam o calor que insiste. Cada uma cobre o que a outra deixa passar.

Uma casa que toma as quatro decisões juntas é uma casa que se mantém confortável na maior parte do ano sem depender de máquina nenhuma.

Tudo isso se decide no projeto, e no projeto custa quase nada. Girar a casa no terreno não tem preço. Dimensionar um beiral não tem preço. Alinhar as aberturas para o vento atravessar não tem preço. São decisões de inteligência, não de orçamento.

O que tem preço é o contrário. É a casa que ignorou o clima e agora paga em ar-condicionado ligado o ano inteiro, em conta de energia que não baixa, em cômodos que a família deixou de usar nas horas quentes. O conforto que não foi projetado vira uma despesa mensal para o resto da vida da casa.

A casa de praia não precisa virar forno. Ela vira forno quando ninguém parou para ouvir o sol e o vento do lugar. E o lugar, no litoral da Paraíba, tem muito a dizer para quem projeta com atenção.