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O que é um bom projeto: a pergunta que todo cliente deveria fazer antes de assinar — Caderno Cactos
A pergunta que muda tudo, Cactos Arquitetos
Caderno Cactos/Processo Cactos
Processo Cactos

O que é um bom projeto: a pergunta que todo cliente deveria fazer antes de assinar

Emanuel Souto e Natália Lourenço
7 min de leitura

A família chegou com uma pasta de referências. Fotos do Pinterest, imagens do Instagram de arquitetura, capturas de tela de casas que "tinham um estilo parecido com o que a gente quer". Lindas, todas. Coerentes entre si, nem tanto.

A gente ouviu, folheou, e depois fez a pergunta que vem antes de qualquer imagem: como essa família acorda de manhã? Como os filhos chegam da escola? Quem cozinha e quando? Alguém trabalha em casa? A família recebe amigos com frequência ou prefere intimidade? Há algum membro com mobilidade reduzida, agora ou provavelmente em dez anos?

As fotos da pasta respondem à pergunta "o que parece bonito?" O que a gente precisa saber é diferente: "como essa família vive?" A resposta para essa pergunta é o que separa um projeto que serve de um projeto que apenas apresenta.

O que um bom projeto não é

Um bom projeto não é o projeto mais caro. Não é o que tem mais metros quadrados. Não é o que segue a última tendência de acabamento que apareceu nas revistas. Não é o que foi feito mais rápido. E definitivamente não é o que ficou mais parecido com a pasta de referências que o cliente trouxe na primeira reunião.

Um projeto que copia uma referência sem entender o porquê daquelas escolhas é uma fantasia. A casa de litoral nordestino com Pedra Miracema e cobogós que aparece no portfólio de um escritório funciona porque foi pensada para o nordeste, para aquele terreno, para aquele clima, para aquela família. Copiar a forma sem entender o conteúdo é fazer um traje que não veste ninguém em particular.

Projeto renderizado é promessa. Projeto construído é resultado. A diferença entre os dois diz muito sobre quem fez.

Um bom projeto resolve problemas que a família nem sabia que tinha antes de se mudar. Ele antecipa, não apenas atende. Essa diferença não aparece no render. Aparece na vida cotidiana dentro da casa.

O que é, então, um bom projeto

Um bom projeto é aquele que conhece profundamente quem vai morar. Que fez as perguntas difíceis antes de desenhar a primeira linha. Que entendeu o terreno como condicionante, não como obstáculo. Que resolveu a orientação solar, a ventilação cruzada e o sombreamento antes de escolher a cor da fachada.

Um bom projeto tem programa real: dormitórios com o tamanho certo para quem vai dormir neles, banheiro que serve ao número de pessoas que vai usá-lo, área de serviço que respeita a rotina de lavagem da família, cozinha com bancada que viabiliza o prazer de cozinhar.

Um bom projeto tem espessura técnica: compatibilização de estrutura, hidráulica e elétrica antes de a obra começar, especificação de materiais que duraram no litoral nordestino, detalhes de janela que entregam ventilação e não apenas luz.

E um bom projeto tem identidade: não uma identidade genérica que poderia estar em qualquer cidade, mas uma identidade que só faz sentido aqui: nos materiais que o nordeste sabe usar, no pé-direito que o calor exige, na varanda que o modo de vida pede.

As perguntas certas para fazer antes de contratar

O que perguntar a um arquiteto antes de assinar
"Posso visitar uma obra que você acompanhou?": render é intenção. Obra concluída é resultado. Um escritório seguro do trabalho entrega contato de clientes anteriores sem hesitar. A visita revela o que a foto não mostra: como o detalhe foi executado, como o material envelheceu, se o cliente usaria o mesmo escritório de novo.
"Quais disciplinas o projeto inclui?": projeto arquitetônico sozinho não vai para a obra. É preciso projeto estrutural, hidráulico, elétrico, e compatibilização entre todos eles. Um escopo que inclui apenas a arquitetura entrega a planta para aprovação. Um escopo completo entrega o conjunto que permite construir sem surpresa. Entenda o que está incluído antes de comparar preços.
"Como você trabalha o programa da família antes de projetar?": se o arquiteto chegar na primeira reunião com uma proposta de planta pronta ou quase pronta, algo está errado. Bons projetos nascem de escuta. O briefing (a conversa sobre como a família vive, o que precisa, o que não abre mão) precisa acontecer antes de qualquer linha. Pergunte como isso funciona no processo do escritório.
"O projeto considera a orientação solar e a ventilação natural?": no nordeste, essa pergunta tem peso especial. Se o arquiteto não mencionar carta solar, ventos predominantes ou estratégias bioclimáticas em nenhum momento da conversa sobre o projeto, é um sinal relevante. Conforto térmico passivo não é opcional no litoral paraibano: é o que define se a casa vai ser agradável ou cara de manter.
"Quem acompanha a obra, você ou um preposto?": acompanhamento de obra é diferente de gerenciamento. E acompanhamento feito por quem projetou é diferente de acompanhamento feito por um terceiro que não conhece o projeto. Entenda quem vai ao canteiro, com qual frequência e o que é verificado em cada visita. Isso define se o projeto vai chegar ao fim como foi pensado.

O que o preço não diz

O preço do projeto é o dado mais visível e menos informativo para avaliar qualidade. Um projeto mais barato pode incluir apenas a planta de aprovação: sem detalhamento executivo, sem especificação de materiais, sem compatibilização. Um projeto mais caro pode incluir todo o conjunto técnico necessário para construir com segurança.

A comparação correta não é entre o preço A e o preço B. É entre o escopo A e o escopo B. O que cada proposta inclui, entrega e garante. Um projeto completo que custa R$ 25 mil e evita R$ 60 mil de retrabalho em obra é um projeto que pagou por si, mais que pagou.

Quem contrata apenas o projeto de aprovação e leva para o canteiro sem detalhamento executivo vai tomar decisões de obra no canteiro: onde mudar custa mais, onde o pedreiro decide pelo arquiteto e onde o resultado raramente é o que foi imaginado.

O que define o projeto Cactos

A gente trabalha com EVF (Estudo de Viabilidade Familiar) antes de qualquer planta. É a conversa que mapeia como a família vive, o que ela valoriza, o que não abre mão e o que pode ser comprimido. É a conversa que descobre que a sala de jantar vai ser usada apenas nas festas de fim de ano e que a varanda vai ser o coração da casa.

Trabalhamos com BIM desde o anteprojeto, não como ferramenta de apresentação, mas como método de compatibilização. O projeto estrutural, hidráulico e elétrico coexistem no modelo antes de chegar ao canteiro. Os conflitos são resolvidos em tela, onde custam uma conversa. Não no canteiro, onde custam demolição.

Especificamos materiais que conhecemos: Pedra Miracema, madeira certificada FSC, cerâmica artesanal regional, cobogó. Não porque são bonitos na foto. Porque são os materiais certos para o litoral nordestino, para o calor, para a maresia e para o envelhecimento digno que uma casa de praia merece.

E acompanhamos a obra com RRT, não como visita de cortesia, mas como verificação técnica de que o projeto chegou ao canteiro e vai sair do canteiro como foi pensado.

Um bom projeto não termina no arquivo do computador. Termina quando a família entra pela primeira vez na casa pronta, olha para tudo e diz: "era exatamente isso." Esse momento é o que justifica cada hora de trabalho que veio antes. E é o único critério que realmente importa.