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A casa que envelhece do jeito certo — Cactos Arquitetos
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Por que algumas casas envelhecem bonito no Nordeste, e outras não

Emanuel Souto e Natália Lourenço
11 min de leitura

Duas casas, a quinze anos de idade, na mesma rua

Tem uma rua perto do centro histórico de Cabedelo onde dá pra ver o argumento inteiro desse artigo sem precisar de nenhum gráfico. De um lado, uma casa dos anos 2000, com pintura acrílica lisa numa fachada exposta direto ao vento do mar, esquadria de ferro comum sem tratamento, beiral curto. Hoje ela tem manchas de bolor subindo da base, ferrugem escorrendo da esquadria pra dentro do reboco, pintura estufada em placas inteiras. Do outro lado da mesma rua, uma casa mais antiga ainda, com reboco de cal e areia, pedra na base, madeira maciça tratada nas esquadrias, beiral generoso. Essa segunda envelheceu diferente: escureceu um pouco, a pedra ganhou pátina, a madeira criou aquele tom acinzentado que madeira boa cria com o tempo. Ninguém chamaria a segunda de decadente. A primeira, sim.

A diferença entre as duas não é sorte, nem é "a antiga era mais bem construída porque antigamente construíam melhor", frase que a gente ouve direto e que simplifica demais. A diferença está numa decisão técnica específica, tomada ou não tomada no momento do projeto: cada material ali foi escolhido pra durar naquele clima específico, ou foi escolhido por preço e estética, sem pensar no que o sal, a umidade e o sol iam fazer com ele em quinze anos.

O problema que a maioria não vê

O senso comum trata durabilidade como propriedade do material: "esse material é bom, esse material é ruim". Isso é impreciso. Durabilidade é uma relação entre o material e o ambiente específico onde ele vai ficar exposto. Um material excelente na Serra da Borborema pode se deteriorar rápido a duzentos metros do mar em Cabedelo, e vice-versa. O que envelhece bonito no litoral não é sempre o que envelhece bonito no semiárido, e tratar as duas regiões como se fossem o mesmo clima é um erro que a gente vê direto em projeto vindo de fora.

No litoral, o mecanismo central de degradação é a maresia. Os cloretos suspensos no ar, vindos da água do mar, penetram em materiais porosos e reagem com metais. No concreto armado, esses cloretos atravessam a camada de cobrimento até alcançar as barras de aço da armadura, que começam a oxidar, e a ferrugem, ao se expandir, rompe o próprio concreto de dentro pra fora. É por isso que a gente vê fachada estufando e estourando em placas: não é a chuva, é a armadura enferrujando por baixo. No aço estrutural exposto e nas esquadrias metálicas, o mesmo princípio se aplica sem precisar do concreto no meio: ferro comum, sem tratamento anticorrosivo, enferruja visivelmente em poucos anos de exposição direta à maresia.

O segundo mecanismo, esse mais no semiárido e no interior, é o ciclo de sol forte e ressecamento. Materiais que dependem de umidade constante pra manter a integridade (algumas madeiras mal curadas, certas argamassas mal traçadas) rincham, trincam e se soltam com a variação térmica diária, que no interior da Paraíba costuma ser mais acentuada do que no litoral.

Durabilidade não é uma qualidade que o material carrega sozinho. É uma relação entre o material específico e o clima específico onde ele vai envelhecer, e a decisão que separa uma casa que envelhece bonito de uma que envelhece mal é tomada no projeto, antes da primeira pedra ser assentada, não na hora da manutenção corretiva quinze anos depois.

O que a norma técnica confirma

A NBR 6118, que trata de estruturas de concreto armado, formaliza exatamente esse raciocínio através das classes de agressividade ambiental. Regiões costeiras se enquadram na Classe III, de agressividade forte, e estruturas em contato direto com respingo de maré se enquadram na Classe IV, agressividade muito forte. A norma exige, pra cada classe, um cobrimento mínimo de armadura maior e uma relação água/cimento mais rígida, justamente porque ela reconhece que o mesmo projeto estrutural, com o mesmo aço e o mesmo concreto, se comporta de um jeito diferente a duzentos metros do mar e de outro jeito a vinte quilômetros. Em ambiente litorâneo, o cobrimento de armadura recomendado é sensivelmente maior do que o cobrimento padrão de referência usado em situações de agressividade fraca, exatamente pra dar mais espessura de proteção química entre o cloreto do ar e o aço.

Isso explica, tecnicamente, por que casa de praia com estrutura calculada "no padrão geral", sem considerar a classe de agressividade correta, tende a mostrar sinais de deterioração estrutural mais cedo que uma casa equivalente projetada já prevendo cobrimento maior desde o cálculo estrutural.

No campo dos materiais não estruturais, a literatura técnica indica que materiais naturalmente resistentes à ação do sal e da umidade, como aço inoxidável, alumínio e latão, têm resistência intrínseca à corrosão, o que os torna preferíveis a ferro comum em esquadrias e elementos metálicos expostos perto do mar. Madeiras de boa densidade e bem tratadas, historicamente usadas em esquadria de litoral, também resistem melhor à combinação de sal e umidade do que madeiras leves ou mal curadas.

Comparando famílias de material

Pedra natural, como a pedra Miracema usada em base e revestimento, se comporta bem em ambiente de maresia porque é um material mineral denso, sem armadura metálica interna que possa enferrujar, e ganha pátina com o tempo em vez de se deteriorar visivelmente. É uma das razões pelas quais ela aparece com frequência em projeto vernacular nordestino de litoral.

Reboco tradicional de cal e areia, quando bem executado e com beiral que protege a fachada da chuva direta, tende a durar mais e envelhecer com mais elegância do que tinta acrílica lisa sem proteção, porque é um material mais poroso e "respirável", que não retém umidade da mesma forma que uma película impermeável de tinta malfeita.

Madeira maciça tratada, de espécie densa e curada corretamente, resiste bem a décadas de exposição, inclusive perto do mar, desde que receba manutenção periódica (reaplicação de verniz ou óleo protetor). Madeira de má qualidade ou mal tratada, ao contrário, é um dos materiais que mais decepciona a família a médio prazo, porque o problema não aparece de imediato, aparece só depois de alguns anos de sol e sal.

Metal comum sem tratamento é, de longe, o item que mais acumula queixa em reforma de casa de litoral. Aço inox, alumínio anodizado ou ferro com pintura eletrostática de qualidade resolvem o mesmo uso com uma durabilidade completamente diferente.

Perguntas pra fazer antes de escolher um material perto do mar
Esse material tem armadura ou estrutura metálica interna? — se sim, o cobrimento e o tratamento anticorrosivo precisam considerar a classe de agressividade ambiental correta
Esse material vai ficar exposto direto à chuva e ao sol, sem proteção de beiral? — se sim, ele precisa ser mais resistente, ou o projeto precisa dar proteção física a ele
Existe manutenção periódica prevista pra esse material? — madeira e metal quase sempre precisam de reaplicação de proteção em algum ciclo
Esse mesmo material já foi usado, com sucesso, em outra casa próxima ao mesmo ambiente? — histórico local vale mais que ficha técnica genérica de fabricante

Aplicação prática e custo-benefício

A armadilha mais comum no orçamento de obra é comparar preço de material sem comparar o custo ao longo da vida útil. Uma esquadria de alumínio custa mais na compra do que uma de ferro comum, mas a de ferro, perto do mar, costuma pedir pintura de manutenção a cada dois ou três anos, e ainda assim enferruja nas dobradiças e nos parafusos com o tempo. Em quinze anos, a conta de manutenção da esquadria de ferro pode superar a diferença de preço inicial pro alumínio, sem contar o desgaste estético que a família sente todo dia, olhando pra ferrugem escorrendo.

O mesmo raciocínio vale pra estrutura: prever o cobrimento de armadura correto desde o cálculo estrutural custa uma fração a mais no orçamento inicial de obra, comparado ao custo de recuperação estrutural de uma fachada que já começou a esfarelar por corrosão de armadura. Recuperação estrutural depois que o problema apareceu é sempre mais cara, mais invasiva e mais lenta do que o cuidado inicial.

O que isso muda no processo de projeto

É por isso que, no EVF, a gente pergunta a distância do terreno até o mar antes de especificar qualquer material metálico ou estrutural. Não é burocracia. É a variável que decide se um projeto vai envelhecer como a segunda casa daquela rua em Cabedelo, ganhando pátina e caráter, ou como a primeira, mostrando ferrugem e mancha em menos de dez anos. A gente escolhe poucos projetos por ano justamente pra ter tempo de fazer essa pergunta em cada um deles, com atenção real, em vez de aplicar uma especificação padrão que ignora onde a casa vai estar de fato.