Projetos

Contato

Captação de água de chuva no nordeste: como dimensionar um sistema que funciona mesmo quando não chove — Caderno Cactos
A água que fica — Caderno Cactos
Caderno Cactos / Sustentabilidade
Sustentabilidade

Captação de água de chuva no nordeste: como dimensionar um sistema que funciona mesmo quando não chove

Emanuel Souto e Natália Lourenço
6 min de leitura

A pergunta parece contraditória: como captar chuva num lugar conhecido pela seca?

A resposta está na diferença entre o nordeste do sertão e o nordeste do litoral.

João Pessoa não é Cabaceiras

Cabaceiras, no agreste paraibano, detém o menor índice pluviométrico anual já registrado no Brasil: 278 mm por ano. É um caso extremo que cristalizou a imagem do nordeste como seco.

João Pessoa é outra realidade. A capital paraibana tem precipitação anual de 2.132 mm segundo dados do INMET. Para colocar em perspectiva:

João Pessoa / PB 2.132 mm/ano — chuva média anual
Florianópolis / SC 2.200 mm/ano
Curitiba / PR 1.600 mm/ano
Belo Horizonte / MG 1.500 mm/ano

O que é específico do litoral paraibano não é a falta de chuva. É a concentração: a estação chuvosa vai de março a agosto, com pico em junho (381 mm num único mês). De setembro a fevereiro, chove pouco. A casa precisa ser dimensionada para armazenar o excedente do período chuvoso e usar com critério no período seco.

Como dimensionar um sistema real

O dimensionamento de um sistema de captação não é adivinhação. É matemática com três variáveis.

As três variáveis do dimensionamento
Área de captação A projeção horizontal do telhado. Uma casa de 150m² tem, em geral, entre 170 e 200m² de área de telhado.
Precipitação local João Pessoa tem média histórica de 2.132 mm/ano. No período chuvoso (6 meses), cai em torno de 1.800 mm.
Coeficiente de aproveitamento Nem toda chuva que cai no telhado é captável. Perdas por evaporação, primeira chuva e eficiência do filtro ficam em torno de 20%. O coeficiente é 0,80.
200m² × 1.800mm × 0,80 = 288.000 litros no período chuvoso

Uma família de 4 pessoas usa em torno de 600 litros/dia para usos não potáveis (irrigação, limpeza, descarga). Em 6 meses secos (180 dias): 108.000 litros.

Uma cisterna de 15.000 a 20.000 litros, abastecida no período chuvoso, sustenta os usos não potáveis da família durante a seca com sobra.

Filtragem e segurança

Água captada de telhado não é água potável sem tratamento. Mas não precisa ser — a maioria dos usos não exige isso.

Nível de tratamento por uso
Irrigação e lavagem de áreas externas — Filtro de tela de 200 microns na captação + decantação na cisterna. Suficiente. Custo mínimo.
Descarga de sanitários e máquina de lavar — Filtro de areia + desinfecção com hipoclorito em baixa concentração. Custo adicional de R$ 800 a R$ 1.500 no sistema.
Consumo humano (beber, cozinhar) — Não recomendado sem sistema completo (filtração + UV + controle de pH). Custo de R$ 5.000 a R$ 12.000. Para a maioria das famílias no litoral paraibano, a rede pública é mais eficiente para esse uso.

O que o projeto define

A captação de chuva não é um acessório que se instala depois de pronto. É um sistema que precisa estar integrado desde a fundação: caimento do telhado direcionado às calhas de captação, tubulação de coleta prevista nas paredes e lajes, área para cisterna prevista no levantamento topográfico, e separação entre sistema de chuva e rede pluvial da prefeitura.

Uma cisterna instalada depois de uma obra pronta custa 3 a 5 vezes mais e resolve 60% do que resolveria integrada ao projeto original.

Leia também: Energia solar e captação de chuva: vale a pena na casa nova | Casa sustentável no litoral paraibano: quanto custa e quanto economiza